Voltei, meus queridos. A volta era para ter acontecido há muito, mas problemas técnicos adiaram meu regresso. Contudo, diferente que pensei, não, eu não me encontrei. Ao contrário, estou perdida. Aturdida. Impotente. Oito contra todos foram suficientes. O excelentíssimo senhor ministro Gilmar Mendes, presidente do STF e relator da matéria, decreta a não obrigatoriedade do diploma exercício da profissão de jornalista, na última quarta (17). Já li tanta estupidez que prefiro acreditar serem considerações impensadas, ditas no calor da hora, quando o raciocínio é diminuído.
Não estou aqui defendo os quatro que passei dentro da Academia, apenas. Defendo o respeito que merecemos ter. Diploma, com certeza, não atesta se este ou aquele profissional tem talento, o qual acredito ser nato. Ontem, perplexa, li um colega: "No passado, o jornalista era aquele que escrevia no jornal e pronto. Hoje, depende do jornalismo, a meu ver. Depende muito da proposta". Ora, ignora aí a evolução das profissões. E digo: No passado eram os rábulas quem advogavam, como precários. Foi necessária a vinda da Famíla Real, época tão nefasta quanto os anos de chumbo, para a instituição dos dois primeiros cursos de jurídicos no Brasil. Contudo, a formação "prática" não ocorria apenas com a advocacia: dentistas práticos, como Tiradentes, médicos e curandeiros, engenheiros e toda sorte de profissionais tinham sua cota de praticantes. Mas, acabou. Inês é morta. Ou se é diplomado ou nada feito.
Por exemplo, nos idos de 60/70, a advocacia passou a ser prerrogativa exclusiva dos bacharéis em Direito. E porque cargas d´aguas há a diferenciação com os jornalistas, após anos de atraso? Canalhice, meus caros. Conchavo com as grandes empresas. A
Rede Globo, por exemplo, louvou a decisão. Uma afronta, em "nome da liberdade de expressão". Mas ao que parece, eles confundem liberdade de expressão, com liberdade de impressa, com liberdade de empresa. É risível pra não dizer trágico.
Jornalismo é uma profissão secundária ao que parece. "Quem mostra competência pode fazê-lo sem ser formado, porém, faz-se necessário cursos para reciclagem, especificidades da área, respeito a determinações, ética, etc.", torna a dizer meu nobre colega, a quem tenho muito apreço. Não, meu caro, não mesmo. Digo-lhe que o buraco é muito mais embaixo, pode ter certeza. Não é preciso diploma, mas um curso de reciclagem! Em que? Em ética? Ética se tem ou não se tem. Os valores são adquiridos com as vivências e a partir delas sabemos o que é certo ou errado e, conforme for, decidimos de qual modo deixaremos nosso nome, que, como diz sabiamente meu pai, é a única coisa que temos.
É, Chico, a dor da gente não sai no jornal.
Votaram a favor do relator: As ministras Carmen Lúcia e Elen Gracie, os ministros Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Carlos Ayres Britto, Cesar Peluso e Celso de Mello.
Contrário ao relator: O ministro Marco Aurélio Mello.
Dos 11 ministros, dois deles - Joaquim Barbosa e Carlos Alberto Menezes Direito - não estiveram presentes na sessão.